Aqui quero falar um pouco de transparência e é sobretudo às entidades filantrópicas que dirijo essas minhas palavras.
Surgiu em minha mente uma idéia pouco convencional de transparência. Mas por que estou a expô-la a público? É porque, segundo minhas pesquisas, não pude encontrar nada similar ao que tenho em mente. Isso não quer dizer que não exista, mas apenas quer dizer que pelos métodos comuns que usei (Internet, Google, etc), não pude encontrar, dentro dos meus idiomas (português e inglês), em qualquer local acessível via google, quaisquer teses similar àquela que aqui venho propor. Contudo, sei o quão limitada foi minha pesquisa.
Formou-se em minha mente uma tese, a qual, mesmo ainda prematura, logo me obriga a postá-la, num lugar como esse, por exemplo, para que somente após a discussão, eu possa realmente ter uma idéia de sua validade.
Antes de tudo, devo confessar que minha habilidade de expressão através da escrita está longe de ser das melhores e que peço perdão antecipado ao leitor caso a mensagem que tento transmitir fique nebulosa em sua mente ao fim de sua leitura. Portanto, não hesitem em usar do recurso mais valioso de um blog, os comentários, algo que configurei pra permitir que qualquer um possa fazê-lo, sem necessidade de cadastro.
A transparência.
Existe um abismo tão grande entre a transparência convencional e aquela de que venho tratar que somente faço uso da mesma palavra por me faltar uma outra melhor. Por transparência convencional designo aquela habitualmente praticada pelas nossas entidades filantrópicas, a que nos faz lembrar dos murais onde se encontram um resumo de seus dados financeiros ali dispostos para que o público tenha acesso, medida obrigatória por lei, a que tais entidades estão sujeitas para que assim sejam chamadas, ou seja, a transparência mínima que devem exercer de modo que possam estar de acordo com o que entendemmos por filantropia e assim gozar de certas isenções de impostos já bem conhecidas.
Essa tímida transparência, a qual seria facilmente negligenciada caso fosse voluntária, constitui a transparência convencional. Aquela onde, embora um resumo geral dos dados financeiros seja emitido pela entidade, ainda é o público quem deve locomover-se até tais informações para que as mesmas possam ser apreciadas. Aquele que não se contentar com tais dados, e quiser aprofundar-se, poderá, logicamente, solicitá-las ao corpo de dirigentes da dita entidade, algo muito pouco usual de acontecer, mas que não é impossível de se dar.
Agora, falar da outra transparência, é um pouco mais complicado. A que citei acima, todos já conhecem, mas sobre a que pretendo expor, confesso que eu mesmo não encontrei nada similar dentro do universo em que andei, tampouco a vi sendo praticada, ou seja, não tenho onde me agarrar para dar exemplos, não tenho com o que comparar, me encontro num vácuo e é dentro desse vazio que terei que esboçar meus pensamentos.
Falo de um conceito de transparência totalmente novo, uma transparência dinâmica e absoluta, onde sua simples prática teria o poder de mudar por completo todo o caráter da organização que a pratica.
Pra ir mais direto ao ponto, vamos falar de recursos, que é o que mais importa. Toda organização precisa de recursos, certo? Bom, empresas comuns adiquirem tais recursos de uma maneira bem conhecida, ou seja, vendem seus produtos ou oferecem seus serviços, pelos quais cobram dinheiro para depois pagar seus funcionários, investir em infra-estrutura, etc.
Com entidades filantrópicas, dá-se um pouco diferente, essas dependem sobretudo de doações, as quais, se não forem sua principal fonte de renda, estariam pelo menos dentre essas. O que é doação? É algo, geralmente em dinheiro, que uma pessoa oferece à uma entidade qualquer que é usado mais tarde como recursos para que a mesma possa dar continuidade aos seus projetos de responsabilidade social.
Todos sabem muito bem o que é uma doação, difícil alguém que nunca a tenha praticado pelo menos uma vez na vida, seja umas moedinhas ao mendigo, sejam doações regulares à sua entidade de confiança.
Vamos analizar esse gesto mais de perto, o que é o ato de doar? Como isso pode ocorrer? O que é necessário existir para que alguém doe algo para alguém? A resposta parece um tanto óbvia, não acha? Não é compaixão ou altruísmo, embora esses sentimentos também sejam necessários para se completar o gesto da doação, há ainda um outro, determinante, sem o qual, a doação seria barrada mesmo existindo altruísmo: a confiança.
É possível alguém doar algo para alguém em quem não confia? Certamente que não haveria sentido, o que nos leva a conclusão óbvia de que só podemos doar a quem nos desperta confiança.
Porém, é muito comum vermos pessoas doarem dinheiro para entidades que recém conheceram, como isso seria possível? Como essa pessoa obteve confiança assim tão rápido? E por que ela doou mesmo não tendo uma garantia segura de que sua doação iria realmente ser usada para os fins esperados? O que teria lhe dado segurança?
Bom, eu não sei responder com exatidão essa pergunta, mas suponho que seja simplesmente pelo rótulo. Para muitas pessoas, basta que chegue uma entidade rotulada de filantrópica e ela oferece ajuda, cegamente, na esperança de que sua doação seja bem usada, mas nunca com a segurança firme de que isso realmente vá ocorrer, porém mesmo assim doam.
Entretanto, existe algo estéril nesse tipo de doação. Ela não procede, não dá continuidade, por quê? As pessoas que a praticam, muitas vezes abordadas de surpresa por determinada pessoa representando certa entidade, muitas vezes não a repetem. Limitou-se àquela doação e pronto. Algo faltou para que seu gesto se repetisse espontaneamente: transparência.
Se falamos que a confiança é o agente determinante no gesto da doação, então, indispensável se torna a transparência, pois só a partir dela é que pode provir uma sólida confiança. É essa transparência o centro de toda minha tese.
Filantropia é algo importante pra nossa sociedade. São as empresas comuns, é claro, que movimentam economicamente nossa sociedade, mas são as instituições beneficientes que, quase ocultas, complementam o serviço social que o Estado em muito fica devendo. Sem essas organizações nossa sociedade seria com certeza um lugar bem mais difícil pra se viver.
É de dar tristeza ver a dificuldade em que tais organizações sobrevivem. Dependendo de doações voluntárias como fonte principal de recursos, limita-se fortemente seu campo de ação. Como seria nossa sociedade se certas organizações filantrópicas possuissem o mesmo poder financeiro que nossas empresas mais ativas?
Imagine aquela pequena e tímida "casa de ajuda à criança de rua" que, através dos recursos que as escassas doações lhe provém, consegue com muito esforço desenvolver suas campanhas de auxílio ao necessitado. Como seria nossa sociedade se a mesma entidade, ao invés de tímida e oculta, pudesse contar com recursos virtualmente ilimitados, contratar funcionários assalariados, investir em materiais e maquinários, encarar campanhas de publicidade custosas, enfim, contar com a mesma estrutura cara e eficiente que a empresa comum dispôem, entretanto, tudo voltado à auxílio do próximo, à melhoria da sociedade. Você não acredita que isso seja possível? Não? Bom! Mas eu acredito ser plenamente possível e praticável.
Segundo essa tese, toda organização cujos dirigentes renunciarem sinceramente todo e qualquer privilégio financeiro, poderá usufruir de recursos cada vez mais crescentes e poderosos segundo a fidelidade com que aplicarem a transparência comprovada publicamente. Como o centro de tudo é essa transparência, essa merece uma melhor definição: essa transparência não tem absolutamente nada a ver com a transparência convencional timidamente praticada por muitas entidades, falo de uma transparência completamente diversa: ela é ativa, completa, incondicional, brilha aos olhos dos que passam, conquistando a confiança sincera e espontãnea de seus possíveis associados, garantindo sobretudo, ilimitadas possibilidades de duradouras doações e patrocínios.
É uma transparência ativa, ou seja, não fica restrita a informações pregadas em murais. Ao contrário, informações financeiras jorram por todos os lados à quem quer que tenha olhos para ver. Através dos recursos que nossa Internet oferece, a informação é que vai de encontro as pessoas, ao invés de ser encontrada por elas.
A transparência nasce junto com a entidade e a acompanha permanentemente até seu fim. Tudo é aberto por padrão, toda informação é acessivel sem restrições, nada fica oculto, toda atividade rotineira deve ser o mais detalhadamente possível exposta ao público com ênfase nos processos administrativos e financeiros.
Ah, antes que eu me esqueça, renúncia financeira não se trata de renúncia a salário. Numa organização desse tipo, todo membro, inclusive seu fundador/proprietário teria ganhos sim. Aliás, um salário normal, até mesmo equiparado ao emprego comum. Aqui, passa longe aquela idéia popular de que ao fundar uma entidade beneficente, o sujeito deva trabalhar de graça, pois, embora essa idéia pareça nobre à primeira vista, inviabiliza e desestabiliza a organização uma vez que seu dirigente, por ter que manter uma fonte de renda à parte, não pode dedicar-se inteiramente ao desenvolvimento da entidade em questão.
Tal entidade não possuiria um "dono", no sentido comum da palavra, mas sim um coordenador. A entidade seria dirigida segundo a vontade e aprovação do público, mas coordenada pelo corpo de membros. Nessa entidade, a participação do público constituiria parte essencial, ou seja, toda decisão administrativa e manobras financeiras devem ser antes submetidas à discussão pública para sua aprovação. Ou seja, nesse contexto, o "dono" não teria o poder que comumente se tem quando se cria algo, jamais tomaria uma decisão sozinho.
Embora o dirigente possa usufruir de ganhos (e até bons ganhos caso sua função permita) não é ele que cresce, mas a organização.
A própria transparência, solidamente estabelecida, oferece um obstáculo quase intransponível à ganhos pessoais desmerecidos ou manobras financeiras ocultas. Esse estado de coisas, quando bem visível ao público, proporciona uma segurança inabalável para que pessoas venham, espontanemente oferecer suas doações e contribuições, assim fazendo com que todo tipo de recursos surja naturalmente em abundância, por todos os lados e das formas mais inusitadas, ininterruptamente. Sei que o que eu digo precisa de base. Você pergunta: Como pode garantir que as coisas se dariam dessa maneira? Como a simples transparência traria recursos abundantes à uma entidade?
Bom, no decorrer de meus posts, darei mais base a isso. Nesse, fico por aqui, e conto com vossos comentários.